segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Coisas do capitalismo

Por Eliakim Araújo,
jornalista (*)


Quem pensa que já viu tudo em matéria de ganância e especulação que levaram o sistema financeiro mundial ao colapso em que se encontra hoje, ainda vai ter muita surpresa. À medida em que são abertas as caixas pretas dos bancos falidos, estão aparecendo gigantescos trambiques praticados pelos 'gênios do mal' do mercado financeiro. Gente com título de MBA que ganha para pensar como enganar o próximo e enriquecer desonesta e rapidamente.

O Lehman Brothers, por exemplo, um dos mais confiáveis e tradicionais bancos norte-americanos, que entrou com pedido falência há três semanas, fechou, mas deixou uma imensa conta para as seguradoras.

A história é deixar qualquer um de cabelo em pé. Descobriram que os ativos do banco estavam segurados por um instrumento financeiro chamado CDS (credit-default swaps) , um contrato de seguro destinado a cobrir as perdas dos bancos se determinadas obrigações não fossem cumpridas. Em outras palavras, o banco comprava um seguro para se proteger contra devedores que falhassem no pagamento de hipotecas ou outros tipos de empréstimo.

De posse do tal CDS, o banco emitia e vendia títulos com a maior facilidade. Claro, qualquer investidor sai feliz da vida quando compra um papel garantido por uma apólice de seguro, não é mesmo? Só que o CDS se espalhou como uma praga no mundo inteiro. E desonestamente. Uma mesma apólice segurava mais créditos do que o contratado. Como se fosse uma pirâmide.

Certamente, o leitor deve estar perguntando: mas e a fiscalização, não fez nada?
Nada, pois o próprio Christopher Cox, o chefão da SEC (Securities and Exchange Commission), equivalente no Brasil ao presidente da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), ou seja o homem encarregado de regular e fiscalizar o mercado, se declarou chocado com a 'descoberta'. Ele estima que o volume dessas operações deve chegar a US$ 58 trilhões no mundo inteiro. Só o Lehman tem créditos com as seguradoras estimados entre 400 e 600 bilhões de dólares. Um dinheiro que não existe e ninguém tem condições de pagar. Muito menos as seguradoras que participaram de um jogo sem nenhuma regulamentação, vendendo um tipo de seguro completamente fora das práticas legais e usuais do mercado. Para a SEC eram operações invisíveis, que não podiam ser fiscalizadas.

Coisas do capitalismo, quando poucos saem ricos e ilesos dos golpes, deixando na mão milhões de vítimas.

(*) Artigo publicado no site Direto de Redação, editado em Miami (EUA).

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